Como acontece?

Tudo pode começar na simplicidade do cotidiano, como uma situação rotineira compartilhada que ganha visibilidade em redes conhecidas como Instagram, Twitter, Facebook e YouTube. No centro da questão, usualmente, estão temas polêmicos, posturas questionáveis, descuidos, brincadeiras de gosto duvidoso, promoções e campanhas equivocadas, alguma desatenção, os famosos “mal entendidos” e, também, as grandes manipulações intencionais, especialmente no mercado financeiro e na política.  

Quando o tema estabelece conexão com alguma emoção coletiva, entra em jogo uma verdadeira máquina de moer reputações. Reações, compartilhamentos, comentários e uma aceleradíssima distribuição um a um faz ecoar a emoção pública em um ritmo de verdadeiro contágio. Se as marcas ou pessoas envolvidas forem minimamente conhecidas, o potencial de disseminação é ainda maior.

Em pouco tempo, o assunto toma conta das trocas em aplicativos de conversa e se dissemina em múltiplas redes. Além do interesse genuíno de quem integra essas redes de indignação, é quase certo que a imprensa tradicional também vai se interessar, gerando a potencialmente destruidora sinergia entre redes sociais e portais, sites, jornais, revistas e programas de televisão.

Essa emoção pública compartilhada em larguíssima escala está fazendo proliferar a cultura do ódio. Marcas, empresas, organizações e pessoas são julgadas, condenadas e executadas pelo tribunal das redes sociais da internet. Uma verdadeira arma de destruição está apontada para todos.  

Nestes casos passamos a assistir mais que conversas bem intencionadas entre pessoas com diferentes convicções. As redes assumem o lugar de campos de batalha. São guerras ideológicas, políticas e sociais, muitas vezes potencializadas por um exército real de robots que viralizam artificialmente as causas para as quais estão a serviço.

Como humanos, seja no espaço pessoal ou por trás de marcas e de empresas, somos incoerentes e imperfeitos. Vamos errar sempre e poderemos aprender e melhorar a partir dos erros cometidos. 

Neste campo de batalhas que se transformaram as redes, as ações mais praticadas são cancelar, apagar e castigar, ou seja, destruir tudo aquilo que é diferente do que eu e meu grupo pensamos; destruir o outro, o estranho; desafiar e lutar com palavras, memes, vídeos e conteúdos que vão deixando as redes marcadas pelo sofrimento das vítimas cada vez mais frequentes e inesperadas. 

Com a cultura do cancelamento – exclusão sumária de quem, aos olhos e julgamento das redes, cometeu erros – sendo levada às últimas consequências, o que passaremos a ver são cada vez mais vozes sendo caladas pelo medo de perder trabalho, espaço ou sofrer ataques mais graves, que ultrapassam a barreira do digital e passam a ser um inimigo real, também fora da internet. 

Perdoar e renovar a esperança, atos tão essenciais quando acreditamos na natureza humana, parecem não caber. Sobra tempo para julgar e falta tempo para compreender. 

Precisamos compreender que a internet e suas redes parecem ser, muitas vezes, um território sem lei que nos conduz para uma espécie de barbárie on-line. No entanto, embora a liberdade de expressão predomine, há consequências formais e informais a partir do que manifestamos nas redes. 

Como profissionais, nos perguntamos para onde esse tipo de comportamento vai nos levar como sociedade. 

Acreditamos no equilíbrio, na democracia do acesso às redes e nas manifestações necessárias e respeitosas em um ambiente que aceite e incentive a troca de ideias e abra espaço para o contraditório. A oposição a ideias e comportamentos pode fazer parte deste contraditório, mas não o cancelamento de pessoas, projetos e organizações.

Esse cenário nos mobiliza a contribuir para a construção urgente de um processo de alfabetização midiática na sociedade. É preciso compreender a lógica e o limite das redes para garantir o potencial de desenvolvimento e empoderamento que elas proporcionam.

O esforço pode começar com um forte e intencional movimento de profissionais, de marcas, empresas e organizações públicas e do terceiro setor em favor do diálogo e da cultura do cuidado nas redes sociais. 

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